viajar é caminhar em sorte
é ousar perceber o mundo frágil
quase sempre inadequado
é o desnorte sentido nos ossos
inscrito na pele
é perder as ilusões de um mundo
cartesiano
racional, onde nada se descobre
tudo se encontra
é perder a crença que o mundo
deve ser visto assim
mas é sobretudo acreditar que à medida
que desaparecemos no horizonte
vamos aparecendo dentro de nós.
Conversas Ao Espelho
espelho, superfície duas vezes enganadora porque reproduz um espaço profundo e o nega mostrando-o como mera projecção, onde verdadeiramente nada acontece, só o fantasma exterior e mudo das pessoas e das coisas. José Saramago. Porque a cultura popular e os devarios tendem a sair-me em inglês: Scoreless victories for serendipity Também me entretenho a tentar co-gerir o Fuck Yeah! The National Last.fm Flickr
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2012-05-10
Source: nomadismo
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2012-04-17
Quando ninguém me duvida, duvido-me. Quando me duvidam, duvido-os.
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2011-12-23
Perco-me, às vezes, numa imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me vêem, como é a minha voz, que tipo de figura deixo escrita na memória involuntária dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia. Não consegui nunca ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. Era precisa outra alma, outra colocação do olhar e do pensar. Se eu fosse actor prolongado de cinema, ou gravasse em discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria longe de saber o que sou do lado de lá, pois, queira o que queira, grave-se o que de mim se grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos da consciência de mim.
— Bernardo Soares, Livro do Desassossego
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2011-11-16
Por vezes é cruel que a rocha demore mais do que uma vida para se desgastar. Os locais continuam os mesmos sempre que lá voltamos e nós já gastamos tantos sapatos e rasgamos tantas roupas; já ocorreram tantas mitoses e apoptoses que já não reconhecemos a matéria de que somos feitos. Mas recordamos o mesmo toque rugoso da rocha, a mesma luz vinda do candeeiro, a mesma ferrugem no metal ainda em pé, como se nenhum segundo mais se tivesse passado desde a última vez que lá estivemos.
E vemos o nosso fantasma fazer interminavelmente o mesmo percurso, incauto da existência de um futuro.
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2011-09-08
às vezes, escrevo coisas assim, unicamente para ter o prazer de me reler. saborear o que sobejou da noite, duma realidade qualquer, talvez para avaliar o meu próprio lixo e amar-me um pouco mais.
— Al Berto, À Procura do Vento num Jardim d’Agosto (via nomadismo)
Source: nomadismo
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2011-08-21
[Flash 9 is required to listen to audio.]Andrew Bird - Yawny at The Apocalypse
Ontem paramos o tempo. Um dia para esquecer a correria e o fracasso do resto dos dias, para deixar de parte o que nos gasta na rotina. Um dia para me perder nos teus olhos e no céu azul, até deixar de perceber o que os distingue.
Agora é esta melancolia: a felicidade das memórias e a ansiedade da chegada do fim. E o desgaste dos erros, sempre os mesmos erros que me devolvem a chãos já pisados.
Mas ontem nada disto importou. Foi um dia para esquecer que tudo isto está quase a chegar ao fim e não tenho novo começo em vista. Não tenho planos. Nunca tive.
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2011-07-27
Nuno Prata - Aconteceres-te
Ainda me lembro da primeira vez que ouvi esta canção, o Nuno Prata iluminado por um azul celeste e olhar perdido no fundo; a repetição dos acordes da guitarra como uma prisão que ora prevalece na canção, ora se esconde entre novos sons que nos distraem da contínuidade dos acordes baixos, até que finalmente se desenlaça numa nova melodia no final da canção.
Lembro-me de ter pegado na tua mão quando a canção começou e de ambos termos descoberto que era uma break up song e que não fazia sentido estarmos de mãos dadas.
E agora já rio como antes, como quando ria. Já sinto o peito, já me destingo.
Tu não tens nada a ver. Já não tens nada a ver.
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2011-03-30
[Flash 9 is required to listen to audio.]Andrew Bird - Armchairs
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2010-12-29
Improvisámos um poema e deitámo-lo ao vento. Não interessa prender o momento. Ele aconteceu e ficou dentro de nós: constrói-nos, torna-nos um pouco melhores, mais felizes. Deixa as palavras voarem e transformarem-se em particulas arrastadas para terra pelo vento. Nós continuamos de mãos dadas em direcção ao sol. E o vento, que nos levanta os cabelos e rouba poemas, não tem a força de fechar os nossos sorrisos e desenlaçar as nossas mãos.
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2010-11-03
O meu coração pensa ser um relógio
porque acelera quando te espera
e acalma quando te abraço.
Talvez espere que o tempo o imite.
